uma bolinha chamada tristeza



Descobri que mesmo com o passar dos anos, mesmo bem (física e emocionalmente), mesmo com muitas áreas da vida alinhadas, mesmo com realizações pessoais e profissionais, tenho pontos de tristeza - fui ao acupunturista hoje e isso veio à tona. Ao fazer minha anamnese, responder as perguntas e contar pra ele um pouco da minha vida, veio a hora de sentir os pontos de tensão (que doem) no meu corpo.

- Está condizente com tudo que você falou, exceto uma coisa: você tem vários pontos de tristeza e você não falou disso hora nenhuma – disse ele, me olhando como se tivesse descoberto um segredo que eu estava escondendo.

Me surpreendi, pois não lembrava qualquer motivo para “estar triste”, uma ou outra situação pontual, mas nada constante. E fiquei tentando puxar na memória. E lembrei.

No final de 2015 eu tive o que eu denominei como “princípio de depressão”, pois nunca fui diagnosticada, mas pelo pouco que entendia do assunto, me vi ciente e dentro de uma situação que, acredito eu, era isso. Eu não sentia vontade, sabe? Vontade de ser porque eu não sabia quem eu era ou se quem eu dizia ser era eu mesma. Enfim. Consegui, por uma luz divina que hoje compreendo melhor, sair do buraco em que estava cavando pra baixo (aqui deixo claro que mesmo não tendo ajuda profissional nessa época, entendo a necessidade e importância de ter!), afinal, era eu ou eu. Consegui ter uma injeção de amor próprio que até hoje me sufoca – e não digo isso de forma negativa. Consegui me olhar no espelho e me admirar, por quem eu estava vendo, pelos meus (re)significados, por simplesmente ser e existir – e usei isso como uma corda pra subir, sair de onde eu estava. Construí um pós-2015 bem legal, do qual sou bem orgulhosa e respeitosa pelo quê(m) passei pra estar aqui como estou/sou. E a vida seguiu. Comecei a terapia só em 2018, por conta de outras situações, mas algumas vezes pontuei sobre esse período nas sessões.

- Olha, teve esse episódio em 2015 – eu disse.- É isso.- Mas faz muito tempo! Não me sinto triste por isso, não é algo que me afeta a esse ponto.

Durante a explicação dele, entendi que a tristeza é como se fosse uma bolinha que a gente esquece e vai enterrando com outras coisas por cima, outros sentimentos, outras vivências, outras experiências. Só que uma hora aquela bolinha acaba criando rachaduras nessa base construída por cima e isso vem com tensões, desânimos constantes e momentâneos, falta de energia. 

Tenho percebido cada vez mais essa necessidade de compreender as coisas, de interligar, de entender os sentimentos/ pensamentos/ ações. Não sei se é a idade ou a loucura do mundo que a gente vive que exige que entendamos o que motiva o próximo além do entendimento da nossa própria motivação pras coisas (o lance de fazer terapia pra lidar com que não faz é válido! hahaha), mas cada dia mais tenho buscado essa iluminação. Dessa forma, a ideia da acupuntura veio para somar a terapia que já faço e como paliativo para esses desânimos pontuais na minha vida tão corrida. Essa consulta me fez olhar ainda mais pra mim. E se olhar é se ressignificar em cada momento; é entender que cada encontro e experiência pode virar uma chavinha em você, pode te fazer ser e sentir o que você nunca imaginou - ou sempre temeu acontecer.

Mesmo assustador, é peculiar isso. É interessante ter umas verdades jogadas na cara pelo seu próprio corpo e muito louco pensar que isso é você querendo te dar uns toques do que tá rolando aí dentro. Isso te faz parar e pensar: ué, gente. Te faz analisar, revisitar as situações e os momentos justamente pra entender a influência disso tudo em quem você é hoje, no que você sente, no que você faz, no que você fala, no que você busca e no que você quer.

Hoje descobri que existe essa bolinha em mim e que meu corpo fez questão de entregar numa consulta com um cara que nunca vi na vida e que leu meu corpo de uma forma que , talvez inconscientemente, eu não conseguia ler - ou não queria. Hoje descobri que esse papo de nosso corpo é um santuário é real, é válido e as coisas vem à tona uma hora ou outra. Se conhecer é lindo, é necessário, é saudável. Revejam suas bolinhas na vida, não tentem cimentá-las, escutem e leiam o corpo de vocês.