um dia resolvi cortar as pontinhas

   
Em 2012 comecei um blog chamado Mundo do Salto Alto. Foi um aprendizado e refúgio legal falar sobre o universo feminino: cabelo, beleza, roupas, pitacos e vários looks recheados de salto alto. Com os anos minha vida foi dando uma revirada, minha cabeça, minhas certezas e isso refletiu diretamente no que era postado. De repente me vi escrevendo coisas tão intensas que não se encaixavam num Salto Alto...coisas reais, pés no chão demais. Me vi, então, descendo do Salto Alto e ficando De Pés Descalços.

A vida tem disso, essa coisa linda que são os (re)começos, as fases, as transições. Tudo tem sua beleza peculiar e deve ser vivida da forma mais intensa possível. Aproveitei muito a fase intensa e frenética do Mundo do Salto Alto e tenho aproveitado também a fase da calmaria e tranquilidade dos Pés Descalços.

Curiosamente, a gente acaba externalizando essas transformações e isso é legal. É legal mostrar o que tem dentro de você não só nas atitudes, mas numa forma de se vestir, de se maquiar. Externalizar é um passo crucial na mudança interior. 

E foi assim que veio meu novo corte de cabelo. De um tímido namoro que durou anos, ele de repente chegou arrebatador, transformador e maravilhosamente intenso. Me refez. 

Quando eu me olhava no espelho, percebi que alguma coisa não estava ornando. Custou a cair a ficha, mas percebi que era o cabelo e isso começou a me incomodar profundamente. Sabe aquela pastinha de inspiração que todo dia tem foto adicionada, mas a gente nunca tem coragem de colocar em prática? Inconscientemente a minha pastinha estava recheada de fotos de cortes; um tipo especificamente: o pixie.

Mas era muito curto, era muito ousado, era muita loucura, era muito muito, sabe? E aí percebi que EU estava muito muito: na vida, nas roupas, nos gostos, nas músicas, nas vontades, nos desejos. E meu cabelo também precisava ficar muito muito.

É estranho você se ver e não se enxergar. Eu precisava disso pra completar essa transformação que vinha tendo de uns anos para cá, precisava mostrar quem eu me tornei. Então eu resolvi cortar. Resolvi cortar mesmo rodeada de "e ses". E se eu não gostasse? E se demorasse pra crescer? E se crescesse estranho? E se eu não me acostumasse? E se desse trabalho? E se...mas e se isso fizeesse eu me amar mais? E se eu me apaixonasse pelo corte? E se eu precisasse disso pra me reenxergar? E se me trouxesse exatamente o que (quem) eu estava buscando? E essa última leva de "e ses" foi mais forte. Cortei.


Procurei uma profissional extremamente capacitada para esse trabalho, que ficou super animada com a transformação e que me passou muita confiança, a Rute, do Boaz aqui de BH. Enquanto a tesoura trabalhava eu sorria. Por dentro e por fora. No salão, ouvia uma mistura de "eu não acredito que ela vai cortar isso tudo", "acho lindo, mas não tenho coragem" e "gente, que doida!" enquanto a Rute fazia sua obra de arte no meu cabelo. E aos poucos eu sentia a leveza na alma.

Quando o resultado veio, foi arrebatador. A nuca nua transmitia minha alma aberta e aquela primeira olhada no espelho, de reconhecimento, de se ver além do que estava sendo mostrado, de passar a imagem que representa quem você, de fato, é. E tudo intensificou: minha segurança, minha feminilidade, meu amor próprio, minha alegria, meu sorriso. 




Eu precisava disso. Precisava dessa coragem, dessa doideira, desse desapego pra firmar quem eu sou e quem eu quero continuar sendo.

Como tudo na vida, eu já tinha me preparado pras opiniões alheias não pedidas sobre o meu cabelo. Mas, curiosamente, não teve sequer UMA ÚNICA OPINIÃO CONTRA o corte, muito pelo contrário! Foi uma chuva de elogios e muita gente - até quem eu nunca vi na vida - falando que me via agora. Que meu semblante estava diferente, que o olhar estava iluminado, que eu estava interessante, que rejuvenesci, que eu parecia outra pessoa. Fiquei feliz, pois era exatamente essa a intenção. Acredito que quando a gente se mostra realizada, o mundo vê isso de alguma forma e era assim que me sentia.

Entenda, pra mim não foi apenas um corte de cabelo. Foi a decisão, foi sair da minha zona de conforto, foi vencer traumas meus, foi me enxergar como sou e EU externalizei isso no corte, como finalização desse processo de transformação. Cada um tem o seu, conforme a fase que se encontra. Para cada fase uma transformação; para cada momento uma externalização. Isso que importa, você se ver e se enxergar como quem de fato é usando os meios necessários pra isso.

Já parou pra pensar se você mostra (pra você e pro mundo) quem você é hoje?
Beijas!