A dor e a alegria de ser o que é

 E já dizia o lindo Caetano, em Dom de Iludir:

"Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é"

Desde o início desse ano tenho passado por um período de descobrimentos. Fiquei muito tempo perdida, sem me conhecer e reconhecer. Ás vezes a gente se projeta nos outros e acaba perdendo uma parte (se não toda!) da nossa essência. Acredito que a personalidade seja moldável, reconstruída com as vivências. Mas não a essência. De repente, você vê que não era quem achava ser.

Em uma conversa recente com um amigo meu sobre como eu era no relacionamento, estava desabafando, falando que eu tinha um sério problema em ser ogra demais e justificando, assim, a ogrice da outra parte, ele me disse: "Não...Carol, você é emoção pura. Você só reagia. Como pode uma pessoa ogra ter sentimentos tão puros e distintos assim?". Fiquei atônita porque não enxergava (e ainda é difícil isso) dessa forma. Me via assim de maneira a justificar as ações alheias, quando na verdade era apenas um reação - tóxica. E assim a gente vai com a vida: amizades, amores, família, chefes.

A gente deixa de ser quem é, camufla o verdadeiro eu através de reações em todos os relacionamentos que tem. O problema é quando essa reação faz você acreditar que ESSA é você, quando pega o lugar do que você faria se agisse de acordo com sua essência. A partir do momento que você deixa de ser quem é por outra pessoa, tem um probleminha sério aí. Quando deixa de agir como você de maneira a agradar alguém, tá fazendo coisa errada. Quando tudo isso te causa um mal estar, você não fica bem consigo mesma, é hora de sentar, pensar e buscar lá no fundo da memória quem é você.

Confuso, né?
E foi quando percebi que eu não tinha mais nenhuma base essencial, que não sabia falar o que era só mais uma reação e vi o quanto eu estava perdida. Parecia que estava no automático. Resolvi então me avaliar, lembrar de fases da minha vida, de situações, coloquei até num papelzinho. E aí, meu bem, é um turbilhão de emoções quando você acorda pra vida, pra você. São podres, qualidades, defeitos, alegrias, tristezas. E é difícil conviver com tudo isso num mesmo lugar. É difícil entender e receber sentimentos.

Você se lembra pelo que você chorou, que doeu de verdade, que te fez falta e acaba comparando com o que você chora agora. Dá até vergonha. Parece que quanto mais velha fui ficando, mais fui deixando as coisas importantes de lado.

Você se lembra do que te fez sorrir. E vê que a vida pode ser muito mais leve do que imaginava. E que existe uma vida lá fora esperando pra te mostrar coisas novas, cheia de gargalhadas e pronta pra criar novas lembranças. Que não deve se preocupar com quem não quer ficar na sua vida e que tempo não dita nada. O que vale é o agora.

Você se lembra do quanto ainda tem pra viver, tira velhos planos da gaveta e arruma novos. Vê uma oportunidade de ser feliz em cada dia vivido.

Lembro que antes de voltar pra BH, resolvi começar a me permitir. Aproveitava até o último segundo os lugares que ia em Viçosa, as conversas que eu tinha, as pessoas que conhecia,. Tentava pegar um pouco de cada experiência pra ajudar a juntar meus caquinhos. Quando cheguei em BH, não foi diferente. Vivi em poucos meses a intensidade que não vivi em anos. E entenda aqui como intensidade viver cada momento da vida, um dia de cada vez. Porque era isso, eu estava viva. E me conhecia como ninguém. Sabia o que eu tinha de ruim, o que tinha que ser melhorado, o que eu amava, tentava compreender o que as situações que estava passando despertavam em mim - porque era uma outra maneira de descobrir quem eu era.

A gente é o conjunto de experiências que teve. E isso, felizmente e infelizmente, causa um impacto não só em você, mas nas pessoas ao seu redor. Logo, não espere que entendam suas atitudes, vontades e desejos. Sempre comentei que nesse período tive que ser egoísta, tive que pensar em mim e apenas no que me fazia bem pra sair do fundo do poço que eu me encontrava e até hoje muita gente não entende. Não deixe isso desanimar, não reaja de forma negativa ou, melhor, não reaja da forma mais "esperada" pra agradar ou manter algum tipo de relação. Às vezes as pessoas que mais contamos são as que menos entendem. Pode ser cruel o que vou falar, mas a única pessoa que você precisa é você. Antes de querer se relacionar com as pessoas, a gente precisa aprender a se relacionar com a gente. Vista seu melhor sorriso, só você sabe a dor e a alegria de ser quem é. Só você sabe as cicatrizes que carrega. Só você sabe o que aguenta. Só você sabe o que perde e o que ganha - e pode pesar isso! Não seja quem o outro quer ver, seja quem você precisa ser pra ser feliz.