Quem sou eu?

Você sabe quem você é? Eu não sei mais. Permiti que eu não soubesse. Permiti que me roubassem de mim. Permiti que eu não tivesse voz e nem desejos. Permiti que o outro chegasse, aos poucos, e fizesse em mim suas vontades.

Eu permiti isso. Permiti ser sequestrada de mim. E agora, livre, não sei o que fazer e para onde ir. E isso faz com que sua autoestima vai no chão; faz com que seu coração se rasgue; faz com que você se perca em você: uma pessoa desconhecida.

Daí me pego vendo a Brigitte me olhando. Todos os dias. Me dando beijos e fazendo festa quando chego em casa. E ela me olha por um bom tempo, nos meus olhos. E me dá beijos. E me olha novamente. E me dá mais beijos. Se eu me sento, ela quer sentar ao meu lado, bem grudada. Se não faço carinho nela, ela coloca sua cabeça nas minhas mãos para que isso ocorra.
E pergunto pra mim mesma: Quem é essa pessoa que a Brigitte ama tanto? Quem ela consegue ver que eu não consigo? E ao mesmo tempo me lembro de ouvir frases de pessoas que apostam em mim mais do que eu mesma...e me pergunto: de quem estão falando?
Quem sou eu?

E dói. Dói não saber mais quem você é. Dói você não se pertencer. Dói você ter permitido ser o algo do outro e não o alguém que acrescenta. Ter permitido sua desumanização, sua objetificação. Permitido a substituição da sua essência por atitudes baseadas nas do outro. E assim, você analisa os últimos tempos...o quanto que relações que poderiam dilatar seu mundo, o subtraiu e o roubou de você.
E todos os questionamentos vem à sua cabeça: será que estou no caminho certo? Será que faço o que faço porque quero e gosto ou porque teve o outro envolvido no processo? Será que gosto mesmo de tal coisa ou foi uma projeção do outro em mim? E pior: se não consigo me ter, como posso querer/deixar ter um outro me acrescentando e como posso acrescentar o outro? Não dá.

Quem sou eu?

Eu não sei agora quem eu sou. Essa liberdade me mostra que não sei e não faço ideia de onde recomeçar. Eu não sei o real significado dos meus sentimentos e até onde foram reais. Eu não sei o porquê permiti que o outro projetasse sua vida em mim de forma que eu o vivesse. Eu não sei em qual momento eu me perdi. Mas eu sei de uma coisa: existe alguém aqui. Existe um eu, que não me recordo quem é, mas existe. Existe um sujeito que a Brigitte conseguiu enxergar e que ela ama. Eu não posso ser esse pouco que sobrou, não posso ser essa dor ambulante que restou, não posso ser esse poço de desânimo. Sou alguém e o olhar da Brigitte e a vontade dela estar ao meu lado a cada momento me mostram que preciso reconhecer esse eu, redescobrir, reviver.

Não sei quem eu sou, mas sei que sou um alguém que tem a obrigação de ser feliz e de manter seu eu intacto, sem permitir sequestros.

Originalmente publicado em: Trinta is Coming