Eu nunca vou usar isso!

Todo dia de manhã, eu me culpo um pouco por ter a boca tão grande. Na verdade, todo dia não, porque, de segunda a sexta, eu tenho a desculpa de que “foi exatamente pra ir ao trabalho que eu comprei esses sapatinhos”. Triste é no fim de semana, quando eu quero usar de novo e não tenho desculpa. Tenho só que engolir o orgulho e calçar.

Eu não gosto(ava) de sapatos sem cadarço, nem mocassim nem esses mais casuais. Meu pai diz que eles  denunciam preguiça, mostram que “o homem não tem disposição nem pra calçar um sapato de verdade”. Claro que não é esse o problema, mas eu acho um sapato muito difícil de usar. Fica feio se você usa com meia, estranho se você usa sem... Pra quem tem pé grande como eu, não orna com bermuda, muito menos pode ter estampas ou cores fortes... É uma escolha realmente difícil e, por isso, sempre me pareceu um erro – e eu sempre falei bem mal. Até o dia em que precisei comprar um pra presente, do mesmo tamanho que eu calço, e experimentei por curiosidade.

Eu não sei se vocês já atentaram para isso, mas uma das maiores provas de que o ser humano é essencialmente ruim foi a invenção das Crocs. Ali, o homem conseguiu juntar o maior conforto possível na pior estética imaginável. É claro que gosto não se discute e você pode achar aquilo concebível, mas esse definitivamente não é o meu caso. Esses sapatinhos, coitados, só seguiram essa filosofia. Não se pode mesmo ter tudo na vida. Você, às vezes, precisa escolher entre um sapato bonito e um sapato confortável.
Não bastasse o conforto, esses sapatinhos são realmente fáceis de colocar e tirar, o que aumenta muito a ventilação nos pés. Minha dermatologista indicou recentemente o uso de calçados abertos em razão de uma alergia e, na impossibilidade de trabalhar de sandálias, usei esse pretexto pra trair mais um princípio. Comprei o meu atual sapato predileto. E, claro, do meu tamanho, só tinha vermelho ou xadrez! E é sem eles, balançando os pezinhos no vento sob a mesa da estagiária, que eu escrevo esse texto hoje.


Essa, no entanto, não foi a primeira vez em que eu paguei língua em assuntos de moda. Não faz muito tempo, eu tinha pânico de calças coloridas. Eu sempre gostei muito de cores e, na adolescência, cheguei a comprar e usar muito umas calças verdes e azuis. Mas, aí, veio o Restart e aquela “febre colorida” que fez tudo o que não fosse preto e branco parecer absolutamente infantil. Nessa época, inclusive, eu já decidi abrir mão do tropicalismo ô ô ô e comecei a ver graça em cinza, preto, azul marinho... as “cores de velho” que eu sempre desprezei. Pro ar adulto que eu queria imprimir, essas eram, sempre, as melhores escolhas.
Passou essa fase, veio a barba, a idade, o diploma... e eu virei finalmente o adulto que queria parecer. Aqui, já misturando cores e tons pastéis, mas tudo com o mínimo possível de personalidade, para que as roupas não falassem tanto assim sobre mim. Veio a novela, veio o Fantástico e veio o Mateus Solano fazendo o que eu julgava impossível: parecendo um adulto respeitado e bem sucedido dentro de calças vermelhas. Na segunda-feira mesmo, já comecei a minha peregrinação pelas lojas em volta do trabalho. No meio da semana, uma loja entrou em liquidação e eu experimentei todas as cores possíveis, mas a coragem fraquejou na hora e comprei uma verde, mais escura e discreta, até mesmo para me acostumar à idéia.

Em Minha Mãe é uma Peça, o Juliano (Rodrigo Pandolfo), filho gay da Dona Hermínia, aparece em algumas cenas e no cartaz de divulgação usando um tom meio salmão, também muito bonito. O Sam Alves, vencedor da última edição do The Voice Brasil, também desfilou calças bem coloridas durante suas apresentações. O mesmo tem acontecido fora do Brasil.










O que eu aprendi com episódios como esses foi a não deixar mais que minhas primeiras impressões e preconceitos limitem de forma definitiva as minhas escolhas nesse campo. Limitar de alguma forma é inevitável (e saudável), mas tem coisas que merecem uma segunda chance. Na verdade, o que eu estou tentando aprender é a não falar mal de coisas que, um dia, eu posso vir a usar. Por isso, parei de criticar mocassim e boné, porque já comecei a simpatizar minimamente com uma coisinha ou outra.




Eu disse que certas coisas merecem segunda chance, mas prestem bastante atenção ao”certas”, não é tudo que merece não. Colete (a menos que você seja o noivo), cachecol/lenço (a menos que você esteja na neve), chapéu (R.I.P. Santos Dumont!), correntes de posto de gasolina no pescoço e calça saruel permanecem terminantemente proibidos. Vamos fazer esse mundo melhor, gente!









Caio Pedra
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